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Luminosidade fluida: A iluminação arquitetônica na obra de Zaha Hadid


Luminosidade fluida: A iluminação arquitetônica na obra de Zaha Hadid

Os projetos de Zaha Hadid são notáveis não só por suas formas inovadoras de manusear materiais tangíveis, mas também pela sua imaginação em relação à luz. Suas teorias de fragmentação e fluidez são técnicas projetuais bem conhecidas que possibilitaram sua descoberta de formas. No entanto, seus avanços no uso da luz para transmitir sua arquitetura foram, muitas vezes, negligenciados -mesmo que tenham se tornado um elemento essencial para revelar e interpretar sua arquitetura. A transição de três décadas de linhas mínimas de luz no seu projeto do Corpo de Bombeiros de Vitra até o átrio mais alto do mundo no arranha-céu Leeza SOHO, que recolhe uma abundância de luz natural, mostra o notável desenvolvimento do legado luminoso de Zaha Hadid.

A luz fecha a lacuna entre a arquitetura e nossa percepção. Percebemos formas e materiais com nossos olhos não diretamente, mas através da luz refletida. O uso da luz por Zaha Hadid pode parecer gráfico à primeira vista com suas linhas claras. No entanto, a grande dama operava muito habilmente para melhorar sua imaginação arquitetônica. Linhas luminosas -como luminárias ou janelas- caracterizam seus primeiros trabalhos, ao passo que campos luminosos e jogos de brilho emergem mais tardiamente.

Linhas deconstrutivas de luz

Linhas não paralelas decisivas marcam a energia explosiva de seu primeiro edifício: a Estação de Corpo de Bombeiros de Vitra (Weil am Rhein, 1993) - uma expressão lúcida de tensões com paredes de concreto. Linhas de luz no teto, ou entre a parede e o piso, ou entre a parede e a cobertura reforçam a arquitetura linear de formas afiadas. No interior, os intervalos de luz entre a parede e o teto também desconstroem estruturas convencionais. Mesmo o projeto das cortinas solares marcantes intensificam a linguagem de padrão linear. As linhas de luz precisas emergem como manifestações construídas de suas pinturas suprematistas. Ainda que as bordas das luminárias internas ecoem as linhas afiadas das formas em concreto, a iluminação suave e difusa interior e exterior de forma a neutralizar a energia das formas da edificação

 

Transformando linhas urbanas em fitas luminosas

As explorações de Zaha Hadid com pinturas abstratas levaram a várias interpretações gráficas de iluminação e luminárias. A fim de entrelaçar a paisagem circundante com suas novas estruturas, Hadid analisou padrões abstratos de transportes urbanos e transformou-os em padrões de luminárias. No Terminal Hoenheim-Nord de Estrasburgo (2001), ela ficou fascinada pelas marcas brancas da estrada e converteu-as em luminárias brancas lineares difusas -integradas como tiras no telhado de concreto ou como postes inclinados no estacionamento.

 

Formas coerentes fluindo das janelas aos tetos

O Phaeno Science Center (Wolfsburg, 2005) foi um ponto de virada decisivo na imaginação da iluminação de Hadid. As janelas e luminárias na superfície do edifício compartilham a mesma forma, criando uma abordagem holística de projeto  e, assim, avançando do período anterior de Hadid de linhas e cantos afiados. A estrutura elevada de concreto conforma uma grande área sombreada, com a visão para a luz do dia em um lado intensificando a impressão de um vazio escuro. Como contraponto, luminárias de teto difusas intervêm na atmosfera escura. A estrutura diagonal do edifício foi traduzida em janelas em forma de losango na fachada. Em contraste com projetos anteriores com bordas afiadas, as formas de Hadid aqui assumiram curvas, marcando uma transição para projetos fluidos. Para formar uma superfície exterior coerente, o contorno do losango também foi aplicado na parte inferior do museu elevado. Dessa forma, os visitantes percebem uma abordagem holística formal abrangendo tanto a luz do dia como a iluminação artificial.

Introduzindo reflexões brilhantes da paisagem 

A Estação Ferroviária Nordpark (Innsbruck, 2007) iniciou um novo período de luz e fluidez na obra de Hadid. Aqui, a luz não é absorvida pelo concreto, mas sim refletida pelo vidro. Inspirado por moreias glaciais e formações de gelo na região, Hadid aumentou significativamente a reflectância de suas superfícies para imagens deslumbrantes espelhadas. Portanto, a estrutura não fica isolada na paisagem, mas tem características da paisagem local embutida nela. Ao mover-se para e ao redor da estação, as imagens espelhadas complexas estimulam a percepção do visor. Iluminado à noite, a estação irradia um brilho energético. Anos mais tarde, as superfícies brilhantes na Serpentine Sackler Gallery (Londres, 2013) são uma reminiscência da estrutura de gelo flutuante em Innsbruck.

 

Melhorando a fluidez com a luz natural e iluminação

Enquanto Hadid geralmente aplicava suas formas virtuosas fluindo principalmente para o exterior dos edifícios, o interior do MAXXI, o Museu de Arte do Século XXI (Roma, 2009) ultrapassou a energia espacial de sua fachada. Ela desenvolveu um sentimento característico de uníssono entre formas fluidas, luz do dia e iluminação no museu Italiano. Os brises lineares seguem o grid conceitual e filtram a luz solar -garantindo uma luz suave para as curvas estruturais. A iluminação elétrica é ocultada sempre que possível. As escadas pretas criam um contraste intenso com o lado inferior branco luminoso. A luz difusa flui através do edifício e constrói um contraponto calmo às linhas dinâmicas e ao contraste preto e branco do material.

 

Fascínio dourado e um esplêndido céu estrelado

Após um período com edifícios de concreto, frios e brutos Hadid volta-se pela primeira vez a uma atmosfera morna, dourada e lustrosa com a Ópera de Guangzhou (China, 2010). O projeto do auditório é impulsionado pela fluidez e pela perfeição. Milhares de pixels de luz no teto lembram o público de um céu estrelado. Padrões de luz nas varandas em cascata evocam a impressão de reflexos em cachoeiras. Estas ondas estão em um contraste claro ao exterior cristalino com o padrão triangular da fachada.

 

Manutenção da fluidez durante dia e noite

Esforçando-se pela homogeneidade no Centro Heydar Aliyev (Baku, 2012) levou a uma graduação mais suave de luz e sombra. Durante o dia, o volume reflete a luz e o padrão global de sombra do sol domina, sem sub-texturas interferindo nas superfícies lisas. As fachadas planas de vidro espelham o ambiente circundante. À noite, a luz interior flui para as superfícies exteriores e os projetores exteriores reforçam a geometria do edifício. Consequentemente, as linhas fluidas no auditório revelam gradações de brilho suave também. Em oposição ao arranjo de luminárias estreladas na Ópera de Guangzhou, a iluminação em Baku é sutilmente integrada no forro e nas paredes revestidas de madeira -quase que ocultos ao observador. Iluminações ocultas adicionais sublinham o jogo difuso da luz nas formas fluidas. No entanto, no átrio, as linhas de luz espalhadas rompem com suas bordas rigorosas quando comparado aos fluxos contínuos do restante da estrutura.

 

Luminosidade pixelada

O recente Centro Internacional da Cultura Jovem em Nanjing (Nanjing, 2016) não demonstra uma homogeneidade como o Centro Heydar Aliyev, mas sim uma transição dinâmica de torres verticais de vidro a um embasamento horizontal de concreto. Os painéis losangulares -lembrando-nos novamente dos padrões no Phaeno Science Center- gradualmente transformam-se de painéis de vidro transparente a outros de concreto. O interior apresenta outro avanço da luminosidade fluida. Em contraste com os grandes salões no Centro Heydar Aliyev e na Ópera de Guangzhou, onde a iluminação foi discretamente integrada no teto ou remetia um céu estrelado, o Centro Nanjing mostra uma superfície quase ofensivamente luminosa. Centenas de pequenos furos em linhas ondulantes seguem a dinâmica geometria interior para iluminação. O teto pontilhado no grande salão significa uma estética pixelada luminosa distinta, e o teto estrelado em Guangzhou se transforma em discos luminosos em Nanjing. Obviamente, a relação entre superfícies sólidas e luminescentes mudou para o lado da luz aqui.

 

Facetas brilhantes quebram o volume

Enquanto Hadid já trabalhou com edifícios de vidro antes, como na linguagem fluida da Estação Ferroviária de Nordpark, seu mais novo Edifício no Porto de Antuérpiais (Antuérpia, 2016) introduz uma interpretação fragmentada de um volume de vidro flutuante. A maioria das facetas triangulares na extensão do edifício são transparentes, sendo apenas algumas opacas. Em combinação com sua superfície ondulada, a fachada transmite uma imagem muito vibrante, mudando dramaticamente em diferentes situações de luz do dia. Desde suas paredes de concreto na estação de bombeiros Vitra, na Antuérpia Hadid chegou a uma aparência cintilante para a fachada. Ainda quebra o volume com a fragmentação, mas desta vez não só por meio da forma, mas também pela reflexão.

 

Olhando para trás a carreira de Zaha Hadid, podemos identificar um ponto de virada decisivo em relação à sua estratégia de projeto, manifestada na Estação Ferroviária de Nordpark, onde continuidade e fluidez empurraram seu desconstrutivismo e fragmentação de lado. Este passo também foi traduzido para uma nova linguagem de iluminação. Superfícies opacas de fachada foram então complementados ou substituídos por reflexos e a arquitetura começou a espelhar seus arredores. Da mesma forma, seus interiores variaram do concreto bruto, brancos puros, até o glamour do dourado. Profundamente enraizada na linguagem visual das pinturas suprematistas, Hadid muitas vezes converteu linhas geométricas em linhas luminosas difusas e, respectivamente, curvas. Assim, sua iluminação nos primórdios parecia mais uma expressão de design gráfico do que uma exploração do pleno potencial da luz para interpretar a arquitetura. Enquanto isso, sua iluminação difusa criou uma atmosfera suave, na qual a energia do espaço decorre das formas fluidas. Mas ela não usou luzes direcionais dramáticas para tornar formas ou texturas mais vibrantes.

Vale ressaltar que ela resistiu à tentação de usar o projeto da luminária para aumentar os efeitos visuais e, em vez disso, concentrou-se na própria luz como uma importante dimensão da arquitetura. Enquanto alguns de seus contemporâneos investigaram formas dinâmicas e chegaram a fachadas de mídia para explorar novos tipos de cenários urbanos dinâmicos, Hadid construiu seus parâmetros de projeto para formar e refletir. Surpreendentemente, apesar de empurrar diversos limites formais e técnicos, Hadid quase nunca traduziu o movimento de suas pinturas em iluminações dinâmicas para a sua arquitetura. Sua instalação temporária Parametric Space (Copenhague, 2013) representa uma exceção sonhadora em que padrões de luz reagem ao movimento flexível de uma membrana e estão incorporados em sua linguagem arquitetônica paramétrica. Mas apesar de muitos de seus edifícios terem jogado com volumes sólidos, seu recente arranha-céu Leeza SOHO em Pequim visualiza uma estratégia oposta. Neste projeto, o desejo de luz natural levará ao átrio mais alto do mundo. O abismo translúcido entre as duas metades do edifício busca por uma vida com luz do dia ao redor. Através deste, e de todos os seus projetos anteriores, ela traçou um caminho notável desde linhas fragmentadas de luz até uma fluidez luminosa entre dia e noite.

Créditos: www.archdaily.com.br

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