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Construir Redes em Marvila - Casas Entre Linhas / ateliermob


Construir Redes em Marvila - Casas Entre Linhas / ateliermob

O trabalho do ateliermob na Rua de Marvila em Lisboa começou em Outubro de 2014

A partir de um financiamento municipal (BIPZIP), cujo consórcio era liderado pela associação cultural Xerém, propusemo-nos desenhar para aquele território de cidade expectante uma estratégia anti-gentrificação.

O Plano Diretor Municipal de Lisboa aprovado em 2010 previa que nesta freguesia fosse construído o novo mega-hospital de Lisboa, o arranque da terceira ponte sobre o Tejo e a mancha mais densa de construção de nova habitação. Passados sete anos, nada foi concretizado.

De Marvila escolhemos uma área expectante. Entre duas linhas de comboio que se encontram no seu final e a Rua de Marvila onde ainda se encontra alguns vestígios da Lisboa operária do séc. XX, resiste-se num cenário de futuro adiado. O plano era começar por fazer um processo participado, para ouvir desejos e necessidades.

Este primeiro ano de trabalho resultou na construção do Parque Intergeracional da Rua de Marvila.

Contudo, no decorrer deste ano fomo-nos apercebendo da existência do Palácio Marquês de Abrantes e da sua importância simbólica para aquela população. A maioria dizia que era ali que devia ser construída a sede da Junta de Freguesia, em vez do no novo edifício construído de raiz longe dali. Dizia-se também que faltava gente, que faltavam casas e que havia gente, como pudemos constatar, que vivia sem condições. Falava-se de um tempo em que o palácio tinha sido habitado por mais de 200 pessoas que davam vida à rua, de um tempo em que na zona se implantavam os grandes bairros operários da zona oriental de Lisboa - entre a Sociedade Nacional dos Sabões e a distribuição vinícola, de um tempo em que Marvila era o ponto de chegada de milhares de famílias do interior do país à procura de trabalho e de uma vida melhor - nos anos 40 e 50 do século passado.

É assim que, com um novo ano de financiamento, nos propusemos registar o património imaterial das memórias das pessoas desta Lisboa operária tão esquecida, abrir espaço para que a população pense o Palácio como seu e lhe proponha um futuro diferente que não o abandono e a ruína a que tem sido votado.

A 21 de Janeiro inaugurámos, numa parte do Palácio, a exposição Entre Linhas - a partir do trabalho de Andreia Santana, Diogo Allen, Igor Jesus, João Ferro Martins, Rodrigo Tavarela Peixoto (patente até ao dia 19/2) com alguns registos desta memória. Ao mesmo tempo, o ateliermob deslocou para o Palácio uma equipa de arquitetos que constituiu um gabinete técnico local para o desenvolvimento participado de um programa e estudo prévio de um futuro para o edifício. Até ao dia 19, estaremos, de porta aberta, com um conjunto de programação cultural, visitas e reuniões que permite a todos opinar e ajudar a construir o tal futuro do edifício.

A que conclusões estamos a chegar?

Há um consenso quase generalizado que o palácio deve recuperar a sua função de Casa. Casa de muita gente. Casa de acolhimento temporário que possa servir de acomodação às pessoas da Rua que tenham de ter obras em casa ou de famílias que fujam de guerras e massacres.

Deve ter espaço para operar com a vizinha Sociedade 3 de Agosto mas também conseguir abrigar uma associação que entretanto se parece estar a constituir de Amigos de Marvila Velha. No fundo, defende-se que o edifício deva continuar a ser público e lugar de abrigo para muitas vidas.

Créditos: www.archdaily.com.br

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